difícil dizer se morreu mais um branco ou mais um negro, como diria felipe buitrago.
mas, honestamente, nem gostava dele. só na voz do caetano mesmo...
mesmo fugindo e há mais de 1000 km de casa, as confusões me perseguem. eu estou - nada mais, nada menos - cansada de quilombo na minha vida. quero paz.
do que adianta sair pelo mundo jogando a toalha; fugindo de tudo, das coisas, de outras pessoas, de mim mesma – talvez?!
do que adianta chegar em terras estranhas, enfrentando um frio de 5 graus com umidade de 93%, longe de casa, saudosa de comida caseira, de feijão, de mãe, pai, irmãos, mos meus saltos e do californian coffee, se tudo vira confusão?!
confusão. bagunça. carnaval.
“o meu corpo não quer descansar
não há guarda chuva contra o amor
0 teu perfume quer me envenenar
a minha mente gira como um ventilador...
tanto faz qual é a cor da sua blusa
tanto faz a roupa que você usa
faça calor ou faça frio
é sempre carnaval no brasil”
lyrics by titãs
agora começo a sentir um friozinho na barriga, umas borboletas movimentando no meu estômago e um aperto no fundinho do coração. é estranho, sempre é, mas partir faz parte e pode ser a melhor coisa do mundo.
ontem, quando olhava de uma janela do 26o. andar do maleta os primeiros raios do sol surgindo por trás das montanhas da aldeia iluminada, o hoje me pareceu muito distante. entrar num avião e pisar em suelos argentinos me soavam tão distantes e de repente, cá estou eu, com as malas prontas, casaco pesado em punho, bilhetes de despedida no bolso, um terço na bolsa, um coração no pescoço e alguns colares da mary design acompanhando; tudo isso junto indo em direção a uma nova etapa e inúmeras descobertas que vou encontrar frente.
deixo alguns rastros úmidos para trás e olho pra frente, abrindo o caminho com um certo sorriso. como é bom poder cruzar a fronteira.
abri a janela agora e deixei um vento frio invadir meu quarto, soprar meus cabelos, beijar minhas costas desnudas enquanto escrevo esse post. olho pro céu, que está azul bandeira da argentina, e me lembro que os dias de abril são os que mais gosto. esse mês tem um friozinho não muito tropical e as noites mais lindas e claras, com luas enormes e brilhantes que iluminam nossas montanhas como um refletor.
deixo o friozinho entrar e envolver meu corpo. esse ar gelado me faz arrepiar (mas não o suficiente pra me fazer sair do lugar e pegar um agasalho), e me sobe um quê de prazer sentindo esse frio, respirando esse ar que me gela por dentro, que deixa minhas mãos meio que dormentes e que de alguma forma colabora pra que, nesse momento, meu pensamento voe longe.
olho ao redor e as estantes ainda não foram completamente ocupadas por meus livros, meu quadro de fotos ainda tem seus espaços vazios. vou além e enfrento o vento de frente, espiando pela janela. aguço os sentidos e escuto o riso das crianças do meu prédio. tem um carro passando na rua e o gato da vizinha continua aproveitando a tarde ensolarada sem saber exatamente em que dia da semana estamos.
tudo é tão familiar e tão distante - talvez seja esse o sentimento de quem "não pertence" - e isso, estranhamente, às vezes me soa reconfortante. e libertador.
"so, maybe tomorrow i'll find my way home...".
barulhinho gostoso da chuva caindo lá fora...
fico pensando que esse lance de chuva trazer tristeza é bastante relativo. porque tem dias em que a gente não tá bem, a gente tá meio sem lugar, e água caindo - até a do chuveiro - pode funcionar como um catalisador de melancolia.
daí cê olha pela janela, vê o céu chorando, as gotas caindo no chão como lágrimas se esvaindo e vem uma onda de tristeza como se tudo fosse o mundo conspirando contra a possibilidade de qualquer chance de alegria, especialmente a sua chance de alegria.
mas daí tem dias em que tudo tá bem de verdade e a chuva vem pra ratificar que, de vez em quando, é necessário tirar a lama, lavar a alma, ficar mais leve para poder seguir viagem sem peso demais pra carregar nas costas.
hoje tô leve feito passarinho.
"pra que mentir? fingir que perdoou?
tentar ficar amigos sem rancor?
a emoção acabou.
que coincidência é o amor: a nossa música nunca mais tocou."
ando impressionada com o tanto de gente perdida nesse mundo louco, em dúvida com relação ao que fazer da vida pessoal, profissional, afetiva... bobear, sem saber o que fazer com a vida toda - meu caso, inclusive.
é gente casada, solteira, comprometida, separada, empregada, desempregada, morador da aldeia e de fora dela... enfim, tá cheio de pessoas confusas sem saber o que querem ou questionando se o que tem é por querer ter, ou querem porque tem que querer alguma coisa pra, pelo menos, prestar contas pro mundo. deu pra entender o raciocínio?
eu acho que todos esses sentimentoss embolados tem a ver com falta de comunicação, exceto de informação, tudo muito rápido, depressa demais, volúvel demais. E também é tanta pressão para tudo dar certo: achar o cara perfeito, morar na casa mais linda, ter o carro do ano, ter o filho mais bacana, ser linda e gostosa, ter o corpo da bündchen, enfim... pressão, pressão, pressão!
eu me via anormal, meio excluída num mundo aparentemente muito certo. mas o fato é que por aí tá repleto de gente incerta, que se sente anormal e excluída com os mesmos sentimentos confusos. somos a maioria. a maioria de gente sem rumo nesse mundo cão. o que por um lado é bom já que não estamos sós - se isso serve de consolo.